terça-feira, 25 de julho de 2017

Perdão

Qual foi a verdade que decepcionou 
Os sentidos, o juízo, e deixou ferido
O coração de alguém que mais amou?
E fez do mocinho belo, o feio bandido

E diante do altar, outra vez, chorou
Refletida face na poça da chuva
De uma terça-feira que desaguou
Agasalhada de cachecol e luva

Amargurada alma que desbotou
Perdeu viço, e o brilho quase apagou
Esperançosa alma que ajoelhada, orou
Pelo perdão das palavras que vomitou.

Meri Viero

Sumiu...

Sumiu, feito do inverno, o frio
Do poema mais belo, o verso
Do leito, da cama, e do rio
O inverso, amor submerso

Sumiu, da flor, o perfume doce
O amadeirado do sândalo
Mas quem foi que te trouxe,
E teceu beijos e escândalos?

Sumiu, do poema, a beleza
Necessário relicário raro
Ao compor rimas, toques, certezas
Que fez do amor o bem mais caro.

Meri Viero

Vigor

Sobre tudo e sobra nada; olhar ausente
Em páginas amareladas de saudade
Um amor, uma flor, um sabor somente
Um poema aquarelando liberdade

Agilidade das mãos em traços mil
No toque perfeito da alma inspirada
Matando a sede no deserto, feito cantil
Ofertando palavra adocicada, aguada 

Caindo e reverdecendo um coração 
Maltratado pelo inverno rigoroso
Geadas que queimaram a brotação
Aos poucos vai se tornando vigoroso.

Meri Viero

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Ilusão

O tempo não cura...
Calcifica as dores
Deixa a saudade latejar
A solidão incomodar
O poema escondido
Por entre palavras tristes
O tempo não apaga lembranças
Estão por detrás das janelas
Basta abri-las
E nos olharão
Mergulhadas em lágrimas
Iluminadas por sorrisos
O tempo é o remédio da ilusão
Mesmo prescrito com silêncio
Possui ainda mais contraindicação.

Meri Viero

domingo, 23 de julho de 2017

Surpresa

No toque terno das palavras inesperadas
Caindo leves, feito pétalas perfumadas
Surpresa em linhas retas, tortas adocicadas 
Demoradamente sendo saboreadas

Feito palavra bendita, bem-vinda
Com vírgula e até com reticências
No amor esperançoso, que não se finda
O qual não é explicado pela ciência

Mas cultivado com toda paciência
Cresce trazendo surpresas, floresce
Colore poemas, enfeita essa querência
Que espera, ara a terra em prece.

Meri Viero

Tempo

O dia chegava ao fim
Não tinha sido tão gelado
Mas o tempo continuava...
Calado
Calando doía aqui, mas enfim
Não havia um combinado
O tempo se insinuava...
Estagnado
No circular do relógio ruim
Ruía o esperar solicitado
O tempo se anunciava...
Parado
Nesse tiquetaque, ai de mim
Que viro um ser angustiado
E o tempo raiz criava...
Pra todo lado
Ao longe um anjo querubim
Atirava setas, apressado
Mas o tempo só olhava...
Mau humorado.

Meri Viero



quinta-feira, 20 de julho de 2017

Bordado

O que nunca vai chegar; voa sem poder pousar
Leva sentimentos, que não querem me deixar
Mas há calma; acredite; dentro desse olhar
É a fé na vontade do Criador, o transformar

O multiplicar, é o acreditar em milagres
Os quais, não conseguimos nem imaginar
É o acalmar dos ventos fortes, nos mares
E até a um coração de pedra, amaciar

O que nunca vai chegar, é puro silêncio
Devolvido com ternura pra não mais chorar
Por isso, se aqui permaneço, e ainda fio...
E para toda a tristeza em ouro, poder bordar.

Meri Viero


Voo

Mais uma noite fria, e a solidão inspirando
Às vezes parece até a inspiração parando
Ou deve ser essa esperança me olhando
Tão seriamente, que fico imaginando...

Depois do temporal, deve vir o arco-íris
Para colorir a escuridão do céu da poesia
Diminuir a saudade, amenizar a neuralgia 
Que ramifica, maltrata; e se ler e rires...

Ri baixinho, que é para não me acordar...
Dormi anteontem, quero continuar a sonhar
Mas se vieres, resgata-me, preciso voar
Minhas asas estão atrofiadas; do chão ao ar.

Meri Viero

domingo, 9 de julho de 2017

Escolho...

Parar de sofrer, de chorar, esperar
Molho as flores, a face, aquarela
Essa que sabe como bem camuflar
Viro o rosto, me acabo em desgosto
Mas voo, colibri pousou na janela

Escolho apagar pares de pegadas
E sigo impar, imperfeita, invisível
Escombros ruindo em meus ombos
Deixando marcas, feridas rasgadas
Rasgando a pele, agora intocável

Não jogo, não ganho, não perco; troco
As cartas; páginas brancas e frias mãos
Escondem palavras, tristezas em lavras
Que guardo, já não quero, já não toco
Escolho a paz, a solidão, poesia ao chão...

Meri Viero