sábado, 30 de agosto de 2014

O TERÇO DE MINHA VÓ

O tempo corroído por traças, lentamente passa
Embala a saudade em berço esplêndido, e o terço
Aquele que minha vó rezava, hoje está empoeirado
Ninguém mais rezou, nunca aprendi nenhuma oração
Minha mente teimosa, não sabia guardar não, olhava
Espantada, como tanta palavra brotava do coração
As vezes não entendia nada, mas prestava atenção
Naquela mulher idosa, terço na mão, fé grandiosa
Que um dia o tempo, sem tempo, veio cobrar pensão
Aí ficou quase nada, uns santos ocos em caixa guardada
E outras tantas fotos antigas e cada vez mais amareladas
Tem filha que ainda lembra, cai até uma lágrima, mas e as netas?
Ah, se lembram, ficam caladas, para mim não dizem nada
Mas o tempo faz passado voltar entre risadas e a vida existe outra vez 
Ainda lembro das gargalhadas, da gente criança brincando feliz
Minha vó, de avental, amassando o pão, pra alimentar a meninada
Que lembranças meu netos guardarão? Uma vó atrapalhada
Poeta perdida, sonhando com futuro, quando nem presente tem na mão
Rebuscando o improvável, rasgando o verbo, desmanchando o coração.

Meri Viero